Sergey Brin propõe um novo tipo de ciência para descobrir os segredos da doença – rapidamente.
By Thomas Goetz - Extraído da revista Wired
Alguns dias por semana, depois de um dia de trabalho na sede de Google, em Mountain View, Califórnia, Sergey Brin desloca-se de carro até uma piscina local. Ali, muda para os calções de banho, sobe para uma prancha de 3 m e mergulha. Actualmente, anda a treinar as piruetas. «Sai-se com muita força e depois tem que se torcer logo. Faz acelerar o coração, de facto.»
Tem um benefício extra: com cada mergulho, Sergey ganha um pouco de vantagem contra o risco de algum dia desenvolver a doença neurodegenerativa de Parkinson. Escondida bem fundo em cada uma das células do corpo de Sergey Brin – num gene chamado LRRK2 –, está uma mutação que tem sido associada com maior incidência à doença de Parkinson.
Nem todos os que têm Parkinson têm a mutação, e nem todos os que têm a mutação têm a doença. Mas aumenta realmente a hipótese de que a doença de Parkinson se declare algures na vida do portador entre 30 e 75%. (Por comparação, o risco para um americano médio é de 1%). Sergey, por seu lado, divide a diferença e calcula que o seu ADN lhe dá 50% de hipóteses.
É aí que entra o exercício. A Parkinson é uma doença pouco compreendida, mas a investigação associou uma série de comportamentos com incidências mais baixas da doença, começando pelo exercício.
«Digamos que, com base na dieta, exercício e assim, consigo baixar o meu risco para metade, para cerca de 25%», diz. O progresso constante da neurociência, estima Sergey Brin, cortará o risco por outra metade – ficando as suas hipóteses globais de desenvolver Parkinson em cerca de 13%. São só estimativas, mas ele é extremamente convincente.
Sergey Brin, é claro, não é um qualquer indivíduo de 37 anos. Como parte do duo que fundou a Google, vale cerca de 20 000 milhões de dólares. Desde que descobriu que é portador da mutação LRRK2, Sergey já contribuiu com cerca de 50 milhões para a investigação da Parkinson. O suficiente, calcula ele, para «fazer mexer a agulha». Face ao acelerar da investigação de medicamentos e curas possíveis, Sergey Brin ajusta o seu risco global para baixo, «algures abaixo dos dez por cento».
Soa tão pragmático que podemos quase não perceber um facto notável: muitos filantropos financiaram investigação em doenças que eles próprios tinham. Mas Sergey Brin é provavelmente o primeiro que, baseando-se em testes genéticos, começou a financiar investigação científica na esperança de escapar à doença em primeiro lugar. A sua abordagem é notável por outra razão.
A maior parte da pesquisa em Parkinson, tal como muita da pesquisa em medicina, baseia-se no método científico clássico: hipótese, análise, revisão de pares, publicação. Sergey Brin é a favor de uma forma mais «googlista» de ciência – ele quer recolher dados primeiro, depois formular a hipótese e a seguir encontrar padrões que levem a respostas.
«Geralmente, o ritmo da pesquisa médica é glacial, comparado com aquilo a que estou acostumado na Internet», diz Sergey. «Poderíamos procurar em montes de sítios e coligir montes de informação. E se virmos um padrão, isso pode conduzir a algo.»
A fé de Brin no poder dos números – e no poder do conhecimento de forma mais genérica – é algo que herdou provavelmente dos seus pais, ambos cientistas.
O seu pai, Michael, é um matemático, e a mãe, Eugenia, passou anos a fazer pesquisa meteorológica para a NASA. A família emigrou da Rússia quando Sergey tinha 6 anos. Aos 17, ingressou em Matemática na Universidade do Maryland e mais tarde adicionou um grau em Informática.
Quando chegou a Stanford para o doutoramento – um grau que ainda não atingiu, para grande desgosto dos pais –, focou-se em análise de dados.
Por volta dessa altura, em 1996, a mãe de Sergey, então com 48 anos, começou a sentir uma dormência nas mãos. O diagnóstico inicial foi lesão por desgaste devido aos anos a trabalhar ao computador. Quando os testes não confirmaram o diagnóstico, os médicos ficaram bloqueados. Cedo, no entanto, Eugenia começou a arrastar a perna esquerda. «Era exactamente como a minha tia, que tivera Parkinson há muitos anos», lembra ela. «Os sintomas começaram da mesma forma, na mesma idade. Para mim, pelo menos, era óbvio que havia uma ligação.»
Na altura, a opinião científica era que a doença de Parkinson não era hereditária, por isso Sergey não percebia a preocupação da mãe. «Pensei que era irracional», diz. Depois de mais testes, no entanto, ela viu-se diagnosticada com Parkinson em 1999. Mesmo depois de a ligação à LRRK2 ser feita em 2004, Sergey Brin não ligou a doença da mãe à sua própria saúde. Depois, em 2006, a sua então noiva, Anne Wojcicki, fundou a sua própria companhia de genética 23and Me.
Como sujeito alfa, Brin teve possibilidade de ter uma ideia, muito cedo, do seu genoma. Não encontrou nada de muito cuidado. Mas então Wojcicki sugeriu que ele olhasse para um ponto conhecido como G20195 – o nó no gene LRRK2 onde um nucleótido de adenina, o A no código ACTG do ADN, é por vezes substituído por um nucleótido de guanina, o G. E lá estava: ele tinha a mutação. A leitura da sua mãe na 23andMe mostrou que ela também a tinha.
Sergey não entrou em pânico: para começar, a experiência da mãe com a doença tinha sido reconfortante. «Ela ainda vai esquiar», diz. Em vez disso, ele começou a consultar especialistas na Fundação Michael J. Fox e no Instituto Parkinson. Percebeu que não seria prático esconder o seu risco do público.
Assim, em Setembro de 2008, Sergey Brin começou um blogue. O seu primeiro texto chamava-se simplesmente «LRRK2». «Sei, cedo na minha vida, algo a que sou substancialmente predisposto», escreveu. «Tenho agora a oportunidade de ajustar a minha vida para reduzir essas hipóteses. Também tenho oportunidade de fazer e apoiar investigação desta doença. E isso pode ajudar a minha família, bem como a de outros.»
Durante décadas, a investigação de Parkinson tem sido um parente pobre do estudo da doença de Alzheimer, que afecta 10 vezes mais americanos. O que se sabe sobre a Parkinson tende a sair da observação dos pacientes na prática clínica.
Tecnicamente, a doença é resultado de perda de células cerebrais que produzem o neurotransmissor dopamina, mas o que causa a morte dessas células não é claro. Os sintomas clássicos – tremuras, rigidez, problemas de equilíbrio – surgem gradualmente, e tipicamente só se desenvolvem quando a produção de dopamina já caiu cerca de 80%.
A droga levodopa, que se converte em dopamina no cérebro, continua a ser o tratamento mais eficaz. Mas a droga tem efeitos secundários significativos, incluindo movimentos involuntários e confusão. Outras intervenções, como a estimulação profunda do cérebro, são invasivas e caras. Tratamentos com células estaminais «não funcionam bem», diz William Langston, director do Instituto Parkinson. «Transferir células nervosas para o cérebro e repará-lo revelou-se mais difícil do que todos tinham pensado.» Há, no entanto, algumas áreas prometedoras, incluindo a descoberta da ligação à LRRK2. É especialmente comum entre pessoas de ascendência Ashkenazi, como Sergey Brin, e aparece em cerca de 1% dos pacientes com Parkinson.
Sendo raros, os casos LRRK2 são indistinguíveis dos outros, fazendo da mutação uma potencial janela para a doença em geral. LRRK2 significa «cinase de repetição rica em leucina». Cinases são enzimas que activam proteínas nas células, o que as tornam críticas para o crescimento e morte celulares. No cancro, sabe-se que as cinases aberrantes contribuem para o crescimento do tumor.
As farmacêuticas já desenvolveram inibidores de cinases para o cancro. É também uma enorme oportunidade para o tratamento da Parkinson. Se cinases hiperactivas interferirem com as células produtoras de dopamina em todos os casos de Parkinson, então um inibidor de cinase deve poder ajudar todas as pessoas com a doença.
Outra área prometedora para a investigação é o desfasamento entre a perda de células produtoras de dopamina e o desencadear dos sintomas. Se os investigadores puderem encontrar biomarcadores – proteínas típicas ou enzimas detectados, por exemplo, em análises de sangue ou urina –, que sejam produzidos antes de os sintomas surgirem; um regime de medicamentos pode ser iniciado suficientemente cedo para resultar.
E de facto Sergey tem dado dinheiro para ambas as áreas de investigação.
Mas, à medida que a sua compreensão da doença cresceu, percebeu que havia uma experiência ainda mais ousada para fazer.
Em 1899, os cientistas da Bayer apresentaram a aspirina, uma droga que oferecia um remédio eficaz para constipações, lumbago e dores de dentes, entre outras doenças.
Como funcionava a aspirina – ou ácido acetilsalicílico – era um mistério. Só nos anos 60 e 70 é que os cientistas começaram a compreender o mecanismo: a aspirina inibe a produção de compostos no corpo chamados prostaglandinas, ácidos gordos que causam inflamação e dor. Essa revelação provou-se essencial para perceber a descoberta mais tarde, em 1988, de que pessoas que tomam aspirina frequentemente tinham incidências notavelmente reduzidas de ataques de coração – os casos nos homens baixavam para os 44%.
Quando o medicamento inibe as prostaglandinas, ao que parece, inibe também a formação de coágulos sanguíneos – reduzindo o risco de ataque de coração ou trombose.
A segunda vinda da aspirina é considerada um dos triunfos da pesquisa médica moderna. Mas para Sergey a história oferece outro tipo de lição – uma tirada do período depois de o medicamento ser introduzido, mas antes de a ligação às doenças de coração ser estabelecida. Durante essas décadas, nota Sergey Brin, seguramente «muitos milhões de pessoas que tomavam aspirina tiveram uma variedade de benefícios». Mas a associação à aspirina passou despercebida porque ninguém observava os pacientes. «Todos os dados se perdiam», diz.
A segunda vinda da aspirina é considerada um dos triunfos da pesquisa médica moderna. Mas para Sergey a história oferece outro tipo de lição – uma tirada do período depois de o medicamento ser introduzido, mas antes de a ligação às doenças de coração ser estabelecida. Durante essas décadas, nota Sergey Brin, seguramente «muitos milhões de pessoas que tomavam aspirina tiveram uma variedade de benefícios». Mas a associação à aspirina passou despercebida porque ninguém observava os pacientes. «Todos os dados se perdiam», diz.
Na forma de pensar de Sergey, cada uma das nossas vidas é uma contribuição potencial para uma descoberta médica. Todos passamos os nossos dias a fazer escolhas, a comer coisas, a tomar medicamentos, a fazer coisas.
Com o poder dos computadores, esses dados podem ser recolhidos e analisados. «Qualquer experiência que tenhamos ou droga que tomemos, todas essas coisas são pedaços individuais de informação», explica. «Todas juntas podem ser muito poderosas.» Sergey Brin contribuiu com 4 milhões de dólares para uma Iniciativa Genética da Doença de Parkinson Online na 23andMe: 10 000 pessoas a quem a doença foi diagnosticada e que estão dispostas a despejar toda a espécie de informação pessoal numa base de dados.
Os voluntários cuspiram para um tubo de ensaio da 23andMe para ver o seu ADN extraído e analisado. Essa informação é então cruzada com dados sobre a exposição ambiental dos sujeitos, a história familiar, progresso da doença e resposta ao tratamento. As perguntas vão do mundano («É míope?») ao inusitado («Tem dificuldade em permanecer acordado?»). É difícil salientar demais a diferença entre esta abordagem e a pesquisa convencional.
«Tradicionalmente, uma experiência com 10 sujeitos era grande», diz William Langston, do Instituto Parkinson. «Depois, passou para as centenas. Agora, 1000 seria muito – por isso, com 10 000, de repente, chegamos a uma escala nunca vista. Isto pode fazer avançar o nosso conhecimento dramaticamente.»
William Langston oferece um exemplo. Em Outubro de 2009, o Jornal de Medicina da Nova Inglaterra publicou os resultados de um ano de estudo que concluía que pessoas com Parkinson tinham cinco vezes mais possibilidades de ter a mutação para a doença de Gaucher – uma doença genética em que demasiadas substâncias gordas se acumulam nos órgãos.
William Langston oferece um exemplo. Em Outubro de 2009, o Jornal de Medicina da Nova Inglaterra publicou os resultados de um ano de estudo que concluía que pessoas com Parkinson tinham cinco vezes mais possibilidades de ter a mutação para a doença de Gaucher – uma doença genética em que demasiadas substâncias gordas se acumulam nos órgãos.
Langston pediu ao cientista da 23 andMe Nicholas Eriksson para fazer uma busca. Em 15 minutos, Eriksson pôde identificar 350 pessoas que tinham a mutação. Alguns cliques mais e pôde calcular que essas tinham cinco vezes mais possibilidades de ter doença de Parkinson, um resultado praticamente idêntico ao estudo do JMNI. No todo, demorou cerca de 20 minutos.
Esta abordagem – grandes conjuntos de dados e perguntas abertas – não é desconhecida da epidemiologia tradicional. Alguns dos maiores avanços da medicina emergiram do Estudo do Coração de Framingham, que seguiu 15 000 cidadãos de uma cidade do Massachusetts por mais de 60 anos. Estudos assim demoram décadas e exigem centenas de milhões de dólares e milhares de investigadores.
A Comunidade Parkinson da 23 andMe, por contraste, requer menos recursos e exige muito menos pessoas. No entanto, tem o potencial de providenciar avanços semelhantes. Automatiza a ciência, tornando-a numa coisa que ... acontece. «No fundo, muitas descobertas médicas devem muito a alguma coisa isolada que aconteceu e em que as pessoas repararam»; pode ser a moeda que encontraram debaixo do candeeiro. E se iluminarmos a rua toda, ela pode estar coberta de moedas.
Poucas pessoas têm os recursos para fazer variar a curva da ciência, mas à medida que os custos de sequenciar o genoma diminuírem e se tornarem uma parte rotineira do tratamento médico, todos descobriremos as nossas propensões para doenças. Nesse sentido, a história de Sergey não é apenas mais um conto de bilionário. É a história de todos nós.
Notícia em:Selecções
http://www.seleccoes.pt/o-google-e-a-cura-para-a-doen%C3%A7a-de-parkinsonAcesso em 26 de agosto de 2011.
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