quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Interesses por trás da ciência farmacêutica

É inegável a enorme contribuição de ciência farmacêutica para proporcionar medicamentos que nos permitem viver mais e melhor. Vacinas, antibióticos, anti-inflamatórios, anestésicos, anti-hipertensivos, analgésicos..., a lista é enorme. Também é inegável que desenvolver esses medicamentos custa muito, muito dinheiro. O processo desde a seleção de uma simples molécula, passando por toda a fase de testes laboratoriais e clínicos, pode consumir entre cinco a dez anos e milhões de dólares. E ao final, pode ser tudo jogado fora quando os últimos testes dão errado.

Fazer frente a esse empreendimento econômico tem se mostrado um desafio intransponível para o poder público, mesmo nos países ricos. Assim, a tarefa foi delegada à indústria farmacêutica. O preço a pagar tem sido, salvo exceções, condicionar a procura de novos medicamentos ao potencial lucrativo dos mesmos. O enorme investimento realizado para disponibilizar uma nova droga deve vir acompanhado de um lucro não menos enorme. Com frequência, a indústria acaba submetendo a ciência farmacêutica ao jogo do mercado, onde os critérios éticos que deveriam nortear médicos e cientistas são muitas vezes deixados de lado.

Por se tratar agora de uma atividade comercial, pesquisadores e universidades acabam se submetendo a confusas regras legais de forma que os resultados das pesquisas em vez de pertencerem à sociedade, pertencem, devido a cláusulas contratuais, à empresa financiadora, que divulga o que bem entende.

Um caso que ilustra esse fato ocorreu anos atrás nos Estados Unidos com um peso-pesado da indústria farmacêutica. O laboratório testava uma droga para combater a incontinência urinária. Entretanto, os testes pararam já que entre os efeitos colaterais a droga provocava tendências suicidas nos usuários. O problema é que o princípio ativo desse medicamento era o mesmo utilizado em um antidepressivo que o próprio laboratório comercializava, consumido por milhares de pessoas. Como o medicamento contra a incontinência não tinha chegado a ser comercializado, o laboratório teve o direito jurídico de omitir essa informação (mortes por suicídio durante os testes) por tratar-se de segredos comerciais previstos em lei. Já o antidepressivo, com o mesmo princípio ativo, continuou a ser vendido normalmente.

Hoje em dia, os laboratórios são obrigados a informar às autoridades apenas o início de testes. Já os resultados finais são apenas comunicados se o produto vai ser comercializado. Com isso, informações preciosas que poderiam salvar vidas são omitidas das autoridades e da comunidade científica por estarem protegidas por “trade secrets” (segredos comerciais).

No caso do nosso relato, a informação sobre o potencial suicida da droga veio à tona porque um dos pesquisadores envolvidos no projeto ficou com a consciência pesada e denunciou (anonimamente) esses fatos a um jornalista especializado. Chama a atenção que entre tantos pesquisadores envolvidos, apenas um foi capaz de tomar essa atitude.

Médicos se atualizam sobre os novos medicamentos geralmente através de duas fontes. Uma delas são os vendedores das próprias companhias farmacêuticas que visitam frequentemente os consultórios distribuindo informações sobre novos produtos, junto com uma série de brindes e bugigangas. Claro está que nesse caso os médicos desconfiam que o vendedor realçará os aspectos positivos do produto e tenderá a omitir os negativos. 

Outra fonte são as revistas médicas especializadas. Esta é considerada uma fonte confiável por boa parte dos médicos. O que poucos sabem é que as próprias revistas são mantidas por dinheiro proveniente da indústria farmacêutica, que paga pelos espaços publicitários nelas contidos. Para se ter uma idéia dessa influência, vale lembrar o caso do médico Mike Wilkes. Ele decidiu checar a veracidade das informações veiculadas nos anúncios sobre medicamentos publicados em uma prestigiosa revista médico-científica. Chegou à conclusão que boa parte das informações desses anúncios estava incorreta. Propaganda enganosa mesmo. A própria revista aceitou publicar as conclusões de Wilkes. Como represália, os anunciantes (empresas farmacêuticas) decidiram boicotar a revista, privando-a assim da sua principal fonte de ingressos. Os anúncios -e o dinheiro- voltaram apenas após terem sido demitidos todos os editores (médicos e cientistas) que tinham autorizado a publicação do artigo.

Esses e vários outros fatos nos mostram que, se por um lado a atividade da indústria farmacêutica é indispensável, regras mais rígidas destinadas a proteger a sociedade deveriam ser implementadas. No Reino Unido, um projeto de lei ainda em análise obriga essas empresas a divulgar publicamente resultados de todos os testes clínicos de novas drogas, sem importar se o experimento deu certo ou errado, se o medicamento vai ser comercializado ou não. É um bom início. Da nossa parte, é sempre bom lembrar que universidades públicas e centros de pesquisa, seus departamentos, laboratórios e docentes, devem estar inexoravelmente a serviço da sociedade, mesmo que esta não possa financiar passagens ou diárias de hotel para freqüentar congressos.

Fonte: Pharmaceutical advertisements in leading medical journals: experts' assessments. M S. Wilkes e cols., Ann. Intern. Med., 116:912-9, 1992; The Firing of Dr Lundberg, JAMA, 281:1789-1795, 1999.
 
Notícia em Coluna Ciência
http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2011/09/interesses-por-tras-da-ciencia.html
Acesso em 07 de setembro de 2011.

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