sábado, 8 de outubro de 2011

Nanotecnologia para o aprimoramento de medicamentos

7/10/2011
A laureada Rubiana Mara Mainardes graduou-se em farmácia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e obteve o título de mestre (2004) e doutora (2007) em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Professora adjunta da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Rubiana atua como pesquisadora na área de Tecnologia Farmacêutica.

Nascida em Curitiba, no Paraná, mas criada na pequena Castro, cidade a 150 km da capital, a pesquisadora conta que seus pais sempre trabalharam fora e não cursaram o ensino superior. Todas as manhãs e nas horas em que não estava estudando, ela ficava com a avó materna. "Minha mãe era funcionária do estado, exercia a função de auxiliar administrativo em unidades básicas de saúde da cidade, e meu pai era funcionário da prefeitura, trabalhava com contabilidade", conta Rubiana. 

Seu irmão, dez anos mais velho, ingressou na universidade praticamente na mesma época que ela, formando-se em Ciências Contábeis. Na infância, Rubiana adorava andar de bicicleta e gostava de biologia, química e matemática. "Tinha uma facilidade maior com essas matérias. Nunca tive um desempenho muito bom em história e geografia", conta.

Sempre muito curiosa, Rubiana procurava  entender o porquê das coisas. "Queria fazer algo que pudesse ajudar as pessoas, portanto a área da saúde sempre foi meu foco, mas não imaginava que seria pesquisadora", relata, acrescentado que pensava em trabalhar em contato direto com as pessoas, fazendo o possível para contribuir para a melhoria do sistema de saúde. "Eu sempre gostei muito de ler e estudar. Desde pequena, minha mãe dizia: 'Filha, a única herança que posso te deixar é o estudo, farei tudo o que for possível para que você tenha a oportunidade de estudar'. Sempre tivemos muitos livros e enciclopédias. Eu os devorava".  

Na graduação, a pesquisadora não chegou a fazer iniciação científica (IC) "oficialmente", mas participou voluntariamente de alguns projetos. "Na época, havia poucas vagas para IC no curso de farmácia, e, como eu morava em outra cidade - me deslocava diariamente de Castro para a UEPG -, acabou se tornando inviável", relata. Ao longo do curso, ela foi percebendo que a área oferecia muitas possibilidades distintas de atuação e se apaixonou pela farmacologia. "Fiquei mais interessada quando vi o quanto era incrível o enlace entre a farmacologia e a tecnologia farmacêutica, ou seja, a possibilidade de utilizar formas farmacêuticas 'inteligentes' para aprimorar fármacos que apresentam limitações, sejam farmacocinéticas ou toxicológicas". 

No último ano do curso, Rubiana começou a procurar um mestrado que tivesse como linha de pesquisa o desenvolvimento de sistemas de liberação controlada de fármacos. "Tive como indicação um grupo da UNESP e, nas férias de julho, fui até lá fazer uma visita, conhecer os laboratórios e conversar com os professores", diz. "A partir disso, eu nem cogitava a possibilidade de fazer outra coisa após formada, queria ser pesquisadora. Lia na internet tudo sobre nanopartículas e a sua utilização na área química e farmacêutica. O mestrado se tornou a minha meta e fui em busca dele".

Quando ingressou no curso, Rubiana viu que tinha feito a escolha certa. Para ela, a nanotecnologia é fantástica.  "Não achava penoso ter que ir ao laboratório no fim de semana ou à noite. Na verdade, eu achava isso o máximo". O doutorado, segundo a pesquisadora, foi conseqüência, pois ela permaneceu no mesmo laboratório, trabalhando com nanotecnologia, porém com outro orientador. "Foi um período muito importante na minha vida, amadureci muito", confessa.

Em seu trabalho, a laureada procura desenvolver um novo medicamento à base de anfotericina B, que é um antifúngico muito utilizado, principalmente em pacientes com AIDS, mas que causa vários efeitos colaterais como, por exemplo, problemas renais. "O recurso usado para desenvolver esse medicamento é a nanotecnologia, uma ciência que consiste na produção de um material que, quando administrado no nosso organismo, apresenta melhor atuação do que os medicamentos convencionais, como comprimidos e cápsulas", explica. O objetivo da pesquisa é a formulação de nanopartículas de Anfotericina B, que serão testadas em fungos e em animais de laboratório para verificar se os efeitos tóxicos diminuiram.

Com a vida profissional, Rubiana concilia a pessoal, uma tarefa que "não é fácil para qualquer mulher". "A minha profissão tem um diferencial que talvez a maioria das outras não tenha, que é o fato de sempre trazer trabalho para casa. Isso é um fator complicador". Após o nascimento da filha, a pesquisadora não encontrava muito tempo para cuidar de si.  "Após os meses de licença maternidade, foi muito difícil o retorno às minhas atividades, por que eu queria ficar com minha filha o tempo todo. Hoje ela tem três anos e meio, já passa meio período na escola e posso dizer que voltei completamente à minha rotina profissional", esclarece.

De noite e nos finais de semana, Rubiana aproveita da melhor maneira seu tempo com a filha, porém também tenta encaixar um horário para conseguir deixar as tarefas do trabalho em dia. "Além das aulas e atividades de pesquisa e orientação, atualmente sou coordenadora do curso de Mestrado em Ciências Farmacêuticas, associação entre a Unicentro e a UEPG. Portanto, meu volume de trabalho aumentou ainda mais".

Ainda assim, a pesquisadora ama o que faz. "Na minha área, o que mais me fascina é como a organização de moléculas é capaz de produzir materiais que apresentam propriedades tão distintas e complexas e que, no nosso organismo, se comportam de maneira tão espetacular". Entre as qualidades fundamentais para ser um cientista, Rubiana destaca a curiosidade intelectual, a satisfação em estudar, a determinação, a persistência e, principalmente, a paixão. 

"Sei que muitos jovens almejam trilhar o caminho que segui. A eles perguntaria, primeiramente, se na realização de um trabalho eles apresentam características como determinação e dedicação. Se a resposta for positiva, diria que são bons candidatos para a área", observa a laureada. Para ela, a vida de um cientista é repleta de desafios e de perguntas a serem respondidas, o que fazem dessa profissão fascinante e única. 

Por fim, Rubiana acentua a importância de ter recebido o Prêmio L'oreal-ABC-Unesco, que, a seu ver, representa um reconhecimento do que fez até agora, dos passos que tem dado desde o término do doutorado e uma reafirmação de que ela se encontra na trajetória certa. "É um incentivo para realizar novos projetos. A visibilidade do trabalho aumenta, portanto considero essa iniciativa louvável, não só por ressaltar a mulher no contexto da ciência, mas porque a ajuda financeira é importante para o crescimento do laboratório e para a aquisição de materiais de pesquisa", diz. "Certamente, se tivéssemos mais iniciativas como esta no Brasil, estaríamos em uma situação melhor".
 
(Renata Fontanetto para Notícias da ABC) 
Notícia em Academia Brasileira de Ciências 
http://www.abc.org.br/article.php3?id_article=1534
Acesso em 08 de outubro de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário