domingo, 2 de outubro de 2011

Picas, jogos e esperança, a 'cura' para a sida

A ‘cura’ para a sida é notícia recorrente. À razão de uma vez por ano, em média, os meios de comunicação divulgam alguma terapêutica nova que será a futura vacina para o vírus de imunodeficiência humana (VIH).

Depois, vem o silêncio. Ou então, a resignação dos especialistas perante as novidades: a vacina, admitiu ainda este mês Mitchell Warren, coordenador da AVAC (um consórcio mundial que junta esforços para desenvolver uma vacina), durante um encontro global com especialistas em Banguecoque (Tailândia), continua a ser um dos «maiores desafios científicos» da actualidade.

Mas, só em Setembro, dois grupos de investigação saltaram para as parangonas mediáticas com dois anúncios de vacinas, com princípios e actuações diferentes. Um deles mora mesmo aqui ao lado, e há anos que persegue a ‘pica’ milagrosa. Trata-se do Projecto de Investigação da Vacina contra o VIH da Catalunha e de lá saiu um grande eureka dos médicos Bonaventura Clotet e Josep María Gatell. O princípio é o estímulo da resposta imunitária dos pacientes através de uma proteína feita a partir de 46 moléculas virais. Foi apresentado, ainda numa fase embrionária, num outro encontro dedicado à vacina do qual fez parte a francesa Françoise Barré-Sinoussi, Nobel da Medicina em 2008 justamente pela descoberta, com Luc Montagnier e Harald Zur Hausen, do VIH na década de 80. Mas os testes com esta vacina só começarão, provavelmente, em 2013.

Do outro lado do Atlântico, enalteceu-se o malfadado colesterol como arma terapêutica. É certo que não se trata daquele que conhecemos e que nos aflige o coração (fisicamente falando), mas parece ser outra via para o desenvolvimento de uma vacina.

O que está em causa é a ‘capa’ de colesterol que envolve o vírus. A equipa responsável pela investigação, da Universidade Johns Hopkins de Baltimore (EUA), terá conseguido removê-la e dado, assim, um novo poder aos linfócitos T (responsáveis pela nossa imunidade). Isto porque, segundo os cientistas, o facto de o VIH ser capaz de se revestir com o colesterol de um tipo das nossas células imunitárias – justamente aquelas que fazem o primeiro reconhecimento deste vírus ‘inimigo’ – é uma das suas armas principais. No entanto, esta é outra das vacinas que ainda precisam de ser testadas mais vezes.

Há dois anos, outro bruá em torno de uma descoberta acabou por dar quase resto zero. Uma vacina testada nos EUA conseguiu atrasar os efeitos do VIH. É um facto, mas o efeito foi curto em tempo e em quantidade de pacientes.

Um jogo contra o vírus

Enquanto se discutem vacinas, vai-se tentando conhecer um pouco mais de perto a estrutura do vírus. Neste campo ainda há mais grupos de investigação em todo o mundo.

E a internet abriu um campo imenso de partilha de conhecimentos. Foi o que aconteceu quando dois grupos de jogadores online colaboraram com elementos da informática e do Departamento de Bioquímica da Universidade de Washington. Bastou-lhes sentarem-se e começarem a jogar o Foldit, um jogo concebido por aquela universidade e desvendarem num modelo 3D um pouco mais sobre a estrutura molecular do vírus.

Acabaram por resolver em três semanas um mistério que já durava há mais de 10 anos entre a comunidade científica: a estrutura de um tipo de enzima que tem um papel fundamental na proliferação do VIH.

A colaboração com leigos – que também são citados como autores do estudo na revista Nature Structural & Molecular Biology – resultou, neste caso, como forma de resolver uma limitação da informática, o de modelar em 3D estruturas biológicas.

O Foldit vai servir, entretanto, para desvendar mistérios semelhantes de várias doenças, como cancro, Alzheimer ou outras formas de imunodeficiência. Por outras palavras, uma forma cibernética de esperança. 


Notícia em SOL
http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=29910
Acesso em 02 de outubro de 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário